"Pelos caminhos do mundo
Nenhum destino se perde
Há os grandes sonhos dos homens
E a surda força dos vermes."
Cecília Meireles

quinta-feira, 3 de março de 2011

Memento Mori

Não pensava na morte até que minha filha mais velha se enforcou com o cinto na cabeceira da cama. Naquele dia, minha cabeça foi totalmente e irremediavelmente preenchida com morte.

Cabe ressaltar que minha filha tinha sido diagnosticada com transtorno bipolar e, desconfio, não fez o tratamento como deveria. E eu não cumpri o meu papel de pai. Pai não é aquele quem paga a conta do psiquiatra.

Agora não penso em outra coisa. Meus lábios também ficarão roxos? Meus olhos também ficarão vítreos, olhos de boneca morta? Também vou me cansar disso aqui a qualquer hora por qualquer motivo e vou arrumar um jeito qualquer de ir embora?

Cabe ressaltar que dois meses depois do suicídio da minha filha mais velha fui diagnosticado com estresse pós-traumático, e também não venho fazendo o tratamento como deveria. Mas pago o psiquiatra em dia. Não quero saber quem eu sou.

Perdendo minha filha (se é que se perde uma coisa que não é exatamente sua, mas isso não vem ao caso), perdi todo o resto. Minha família, minha tranquilidade, minha sanidade. Mas o que restaria depois de anos e anos de convivência e entrega?

Nem tanta entrega assim, confesso. Parte de tudo é culpa minha – e essa culpa é o que mais dói. Não ajudei nas lições de casa. Não ensinei a tabuada. Não li histórias antes de dormir. Chegava tarde aos aniversários com um presente bonito e um beijo e nada mais. Talvez essa ausência tenha causado a angústia terrível e insuportável que fez com que a minha menina mais velha desistisse do resto do mundo e mergulhasse de cabeça no infinito desconhecido. Ou talvez fosse só genética mesmo.

Não tenho como saber nada. Minha única obrigação agora é o psiquiatra três vezes por semana e uma dose diária de calmante.

Mas não consigo parar de pensar nisso. Não consigo esquecer. A morte me assombra de dia e quando eu durmo, sonho com ela. Não consigo mais. Não consigo mais.

Angústia incapacitante é contagiosa.

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"Espero que a partida seja boa. E espero não voltar nunca mais."
Frida Kahlo