Pai, mãe, Helvis, Goinha, vó: não leiam isso de jeito nenhum! Parem por aqui!
Tentei sair do armário. Quando eu estava para fazer 15 anos, estudava na escola de música. E meus pais cismaram que eu precisava fazer a crisma (que é um dos 7 sacramentos dos católicos, uma espécie de confirmação do batismo, já que o sujeito não podia escolher ser batizado, mas pode escolher se mantém o compromisso). Me rebelei. Já tinha parado de frequentar missa e qualquer outra coisa relacionada há anos, embora não pensasse muito nisso. Ainda não acho importante ficar um ano discutindo besteiras com uma turma e depois vestir uma camiseta e deixar um bispo passar um óleo na sua cabeça e te confirmar como parte da Igreja Católica Apostólica e Romana. Pois bem, naquela época eu já tinha flertado (e abandonado) a Wicca e o espiritismo. Acho a Wicca a religião mais bonita do mundo. Mas foi quando eu comecei a pensar uma coisa que ainda me aflige de vez em quando: eu acredito em Deus?
Eu já sabia que não queria fazer parte da Igreja Católica Apostólica Romana, indepentente de qualquer crença que eu pudesse ter. Afinal de contas, eu não vou aceitar nunca que, ao mesmo tempo, Deus é transcendental e panteísta onipresente e que Ele está em qualquer lugar mas eu preciso ir na igreja (com hora marcada) pra encontrar com Ele. Entre outras picuinhas da doutrina que eu não aceito (mas não quero entrar em detalhes).
Meus pais não me bateram por isso. Fizeram pior. Teria doído menos se tivesse me batido. Eles me chantagearam: ou eu fazia a crisma ou eu saía da escola de música. Porra. Eu amava estudar música. Eu tava empolgada, com projetos de banda, umas disciplinas fantásticas de história da música, tava me familiarizando com outros instrumentos (tipo o piano; estudei violão). Aquilo teria sido um chute no saco se eu fosse homem. Eu acabei cedendo. Fui pra tal da crisma. Perdi vários sábados da minha vida lá. Só tinha duas coisas legais naquilo: o "catequista" era um conhecido, gostava muito de mim, se interessava pelos mesmos temas que eu, era um cara mente aberta, então às vezes tinha umas discussões boas (e eu ainda pegava discos do Cranberries e do The Cure e livros de psicologia e filosofia emprestados); eu fiz uns dois amigos na turma, com quem só perdi o contato recentemente.
Então, eu ia nos encontros, cheguei a participar de uns eventos, mas aquilo só ia me deixando mais puta com a situação. Afinal de contas, raciocinem comigo: eu teoricamente iria confirmar uma vontade minha de participar de uma religião. Eu teoricamente iria confirmar minha crença num onjunto de doutrinas estipuladas por essa instituição à qual eu iria confirmar minha presença. Mas tem um problema aí: EU NÃO ACREDITAVA NAQUILO! EU NÃO CONCORDAVA COM AQUILO! Então, o que eu estava na prática fazendo era confirmar, como se fosse minha, a vontade dos meus pais. E isso me deixou, uma adolescente de 15 anos meio punk, muito muito puta. Quando eu estava no final da "preparação" pra crisma, meus pais tinham escolhido minha madrinha, mas eu desisti. Cancelei a compra da camiseta e disse que não iria. E não fui.
Não me arrependo. Até hoje jogam isso na minha cara. Mas não me arrependo. Não vai fazer falta nenhuma - não vou me casar na igreja mesmo...
Minha avó materna é a maior carola que eu conheço. Vai à missa de segunda a sábado (a de domingo é igual à de sábado, e ela não perde o Faustão por nada). Ela vive me chamando (intimando) a ir na missa com ela, mas eu sempre refugo. Um dia ela me perguntou: "mas você não reza?". Eu respondi: "não." Ela continuou: "mas você não pensa nisso? Não tem medo de ir pro inferno?". Eu disse: "não. Não penso nisso. Não acredito nisso." Ela ficou horrorizada: "mas que isso!" Para acabar com a discussão (afinal de contas a mulher já tem 81 anos, não vai mais mudar nada mesmo) eu disse simplesmente: "ah! Não penso em nada." e ignorei o resto da ladainha.
Podem achar que sou grossa, desrespeitosa, mas eu não vou em missa, e se for obrigada a entrar em igreja, não sigo nenhum protocolo deles. Não finjo rezar, não faço sinal-da-cruz nem nada do tipo. Por acaso se eu fosse, sei lá, umbandista, as outras pessoas iriam respeitar minha religião, iriam fingir que acreditam, iriam respeitar os ritos em alguma solenidade da qual tivessem que participar por minha causa? Duvido. Porque a maioria das pessoas é cabeça-dura o suficiente pra achar que isso é coisa do capeta e iria provavelmente fazer um escândalo. Não finjo mesmo.
É estranho as pessoas acharem ruim os outros dizerem que não acreditam, como se todo o resto do mundo também precisasse de "acreditar em coisas invisíveis pra fazer o bem". Eu não preciso. Tenho uma moral interna desenvolvida o suficiente pra poder desmentir Dostoievsky: não, cara, deus não existe, mas não é tudo permitido. Eu preciso respeitar o limite do outro. As pessoas têm a mesma medida de liberdade. Não preciso acreditar em deus ou seguir doutrinas de instituições humanas que se dedicam a louvar coisas invisíveis para fazer o bem, para respeitar os outros, para acreditar em justiça.
E a bem da verdade, eu nem sou realmente atéia... Eu não me decidi ainda se acredito ou não em Deus. Eu acho essa questão muito mais importante do que pensar se ele existe ou não. Porque eu não tenho como saber se ele existe (só quando eu morrer haha). E ele não precisa realmente existir para que eu possa acreditar. E eu posso não acreditar mesmo ele existindo. Mas acreditar ou não é mais importante. Isso definiria o resto. Como eu não sei ainda, estou tentendo mais para o lado do "não acredito". Meu argumento principal: é muito fácil assumir uma muleta, e se eximir da responsabilidade de cuidar da sua própria vida e das suas escolhas, e fazer como o meu pai: tudo é culpa de deus ou do demônio, somos apenas peões num jogo já definido por alguém que nem podemos sentir, e o livre-arbítrio é apenas se deixar decidir se vai ser levado por um ou por outro. É mais doloroso, exige muito mais self-control, mas eu prefiro seguir na incerteza, vivendo pelas minhas próprias pernas, pagando o preço pelos meus erros.
Não vou dizer isso com todas as palavras para a minha família. Vou seguir na minha, evitando contato com religião. E defendendo até o fim que o nosso Estado seja efetivamente laico. Já comecei a fazer isso aqui.
Enquanto isso, vamos lá...
Qualquer dia desses vou escrever outro post, com mais argumentos sobre o nosso (falso) Estado laico.




eu poderia fazer um monte de objeções aos seus argumentos, mas como não tenho paciência, não vou fazer, e apenas vou assinalar duas coisas, a primeira é que para o catolicismo Deus não é panteísta, isto é está em tudo; e para reforçar o argumento apenas uso o exemplo do filósofo judeu Baruch Spinoza que foi condenado e excumungado por judeus e cristãos por causa do monismo panteista a que a sua filosofia levava. então onipresença e panteismo não são a mesma coisa. a segunda coisa é sobre o acreditar/ existir de Deus, na verdade existir é mais importante do que definir se acredita ou não, pq como vc mesmo disse acreditar é a sua escolha pessoal e se ele não existir a crença seria infudada, no entanto se ele existe todas as consequencias que são extraídas da existência de Deus pesariam na sua escolha, principalmente do ponto de vista escatológico. o ato de liberdade que deriva da escolha é minimo se vc não reconhece tais consequencia ontologicas. eu poderia ainda objetar a respeito de suas "convicções" "filosóficas" mas não vou me ater a isso, porque como disse não tenho paciência.
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