Assisti todas as 4 temporadas de The Tudors. Gostei bastante. É recheada de inconsistências históricas a série da Showtime (exibida no Brasil no People & Arts). Mas isso só me deixou mais curiosa.
Junto com a torrent da 4a e última temporada vieram séries da BBC e audiobooks. Aproveitei as férias para ouvir os audiobooks e reler muita coisa sobre a história da Inglaterra, principalmente sobre o período Tudor (iniciado após a Guerra das Duas Rosas, York e Lancaster, quando Henry, descendente dos Lancaster, derrotou Richard III, o último Plantageneta, e se casou com Isabel York, se tornando o rei Henry VII, pai de Henry VIII).
(Outro parêntese: estudei a história da Inglaterra com afinco na infância, graças à Enciclopédia Júnior Anglo-Brasileira, em 6 volumes, que eu devorei quando criança. Acabei, assim, mais informada que a maioria sobre a história da ilha; sabia quem era Guy Fawkes antes de ver V de Vingança, sei quem é Jane Grey e por quanto tempo a moça foi rainha - a título de curiosidade, 9 dias apenas. Outras boas fontes de estudos foram a Wikipédia - que Alá a deixe viver para sempre!! - e o livro de história geral do Koshiba.)
Quando eu fiz psicologia, tive no primeiro período uma disciplina de Sociologia, com o saudoso professor Carlos Eduardo de Ataíde e Castro, o (auto-apelidado) Ado. Ele sempre prescrevia a seus alunos um trabalho sobre os "três porquinhos", Karl Marx, Émile Dürkheim e Max Weber. Estudei Sociologia também com afinco - aliás, Ciências Sociais foi uma das minhas opções no meu primeiro vestibular, no longínquo ano de 2007/2008. Enfim, estudei um bocado sobre Weber.
Max Weber era um sociólogo muito diferente, mais chegado à psicologia que à sociologia. Ele teorizava sobre "impulsos" que fazem os indivíduos ter atitudes e tomar decisões em sociedade. Suas áreas de interesse eram política, economia e religiáo. Escreveu várias obras famosas, como A História das Organizações Empresariais Medievais (The History of Medieval Business Organizations), Ensaios Sobre a Sociologia da Religião (Collected Essays on Sociology of Religion), A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (The Prothestant Ethic and the Spirit of Capitalism).
O que tem a ver isso tudo o que eu disse?
Em uma palavra: Cochise.
Em uma de nossas muitas discussões (uma das últimas), Cochise afirmou que Weber estava errado quando escreveu A Ética Protestante. Seus argumentos: a Inglaterra, pioneira do capitalismo, reformada, ainda tinha um "ranço católico", sendo a Igreja Anglicana muito parecida com a Católica e perseguidos os protestantes Calvinistas - na Inglaterra conhecidos como puritanos; huguenotes na França. Naquele dia eu não concordei com os argumentos, mas não tinha como refutá-los.
Agora, tendo estudado um bocado, tenho como defender Weber de acordo. Vamos lá:
(Outro parêntese: reformista é aquele que se posiciona contra a interferência de Roma, não aceita a autoridade papal e aceita a separação da Igreja Anglicana, entre outras coisas, como a negação da transubstanciação da hóstia e a defesa do direito de todos lerem as Escrituras em seu vernáculo.)
Ana Bolena era reformista, e sua filha Elizabeth I foi criada na mesma crença, principalmente por influência de sua madrasta Catherine Parr (reformista também, escreveu livros sobre o assunto), que nomeou um tutor reformista para educar Elizabeth. Edward VI, irmão de Elizabeth, embora filho da católica Jane Seymour, órfão ao nascimento, foi também criado como reformista. Ele tentou inclusive impedir sua meia-irmã católica Mary (criada como católica pela mãe Catarina de Aragão) de chegar ao trono, nomeando como herdeira sua prima reformista Lady Jane Grey (o complô não deu certo; Mary tinha muitos apoiadores, assumiu a coroa britânica e mandou executar Jane Grey 7 meses depois. Jane foi rainha por 9 dias, lembra?)
Após a morte de Elizabeth, que não deixou herdeiros diretos, assumiu seu primo James I, rei protestante escocês, filho da católica Mary I (executada por Elizabeth por conspirar pelo trono inglês). A partir daí, todos os soberanos ingleses são anglicanos, chefes da Igreja criada pelo pai de Elizabeth e Edward.
Elizabeth "reformou" a Igreja Anglicana de Henry VIII, introduzindo elementos da fé protestante na religião oficial a qual ela encabeçava como chefe. Elizabeth foi muito perseguida, por ser uma mulher, por ter a mácula de sua mãe (executada por traição), sua legitimidade sempre questionada. Por isso, fortaleceu o absolutismo no seu governo, e uma das consequências disso foi a imposição do anglicanismo como religião oficial - e portanto perseguição a católicos e protestantes que não aderiram à fé oficial. Os puritanos assim se autodenominavam porque clamavam querer "purificar a fé anglicana dos vícios católicos". Mas boa parte dos ritos anglicanos são protestantes - em conformidade com a fé de seus chefes Elizabeth I e James I.
Foi no governo elizabetano que se iniciaram os cercamentos e a colonização da américa, fundamentais para a posterior Revolução Industrial.
Outros motivos para isso não têm exatamente a ver com os Tudor: o parlamento era forte, graças à imposição da Magna Carta, ainda no século XIII; as Revoluções Puritana e Gloriosa colocaram os puritanos (antes perseguidos) e a burguesia (gentry) no poder. Tudo isso explica como a ética protestante, presente na Inglaterra desde Elizabeth I, passando por James I, Oliver Cromwell e os reis pós-Revolução Gloriosa, ajudou a desenvolver o capitalismo na Inglaterra, que acabou sendo pioneira na Revolução Industrial.
Satisfeito, Cochise?
(Um PS que não tem tanto a ver assim com o texto: a história verdadeira é muito mais interessante e divertida que a ficção. Mas se você torcer o papel, pinga muito sangue.)
Blibliografia:
*The Lady in the Tower – The Fall of Anne Boleyn (Alison Weir)
*Elizabeth and Mary – Cousins, Rivals, Queens (Jane Dunn)
*Jane Boleyn – The True Story of the Infamous Lady Rochford (Julia Fox)
*História – Origens, Estruturas e Processos (Luiz Koshiba)
*Wikipédia
CORREÇÕES
(Porque é claro que um texto digitado num smartphone 2h da manhã ia ter alguns defeitos...)
*Esqeuci de mencionar que durante o período elizabetano o setor naval cresceu muito - principalmente depois da vitória sobre a Invencível Armada (do rei espanhol Filipe II, que foi marido de Mary I, irmã de Elizabeth). Cabe lembrar que os navios serviam tanto para a guerra quando pro comércio - e este último se desenvolveu bastante.
*Mencionei muito por alto a questão da consolidação da Igreja Anglicana. Vou tentar esclarecer os detalhes: a igreja adotava o sistema de crenças puritano, ou seja, predestinação, valorização do trabalho, salvação somente pela fé, etc etc. Mas mantinha uma estrutura episcopal, ou seja, baseada em bispos nomeados pela rainha. Dois grupos lutavam contra esse modelo de igreja: os presbiterianos (burgueses mais "enricados", defendiam que os bispos deveriam ser nomeados dentro das próprias comunidades) e os puritanos (burgueses mais "radicais" e "menos enricados", defendiam a total eliminação da estrutura episcopal e um contato mais direto entre Deus e homens, mais aos moldes de Lutero; se autodenominavam puritanos porque desejavam purificar a Igreja Anglicana das impurezas episcopais).
*Também falei muito por alto do James Stuart, que asusmiu após a morte da prima Elizabeth I como James I da Inglaterra e da Escócia (unificando enfim os dois reinos contíguos). Ele era protestante (embora sua mãe fosse a católica Mary I, rainha da Escócia, executada por tramar a deposição de Elizabeth I) e tentou estender o anglicanismo (já com feições calvinistas) à Escócia, o que gerou muitos problemas com o Parlamento (principalmente a Câmara dos Comuns).
*Já que eu falei do Parlamento, cabe explicar melhor o seu surgimento e funcionamento: era uma instituição medieval, bicameral (Lordes e Comuns), instituída principalmente depois da Magna Carta (e fortalecida após a Petição de Direitos), e sua principal atribuição era permitir ou proibir o rei de criar novos impostos. Como as despesas dos governos absolutistas eram sempre crescentes (com as guerras e outros problemas) e apenas as rendas dos feudos pertencentes ao rei não bastavam, sempre se precisava convocar o Parlamento para criar uma nova taxa que custearia as despesas. Carlos I (filho do James I) perdeu a cabeça porque não dava certo com o Parlamento e quis impor na Inglaterra um governo absolutista nos moldes do governo francês.
*A revolução Puritana (1640-1660) foi quando a burguesia (gentry e yeomen) depuseram o rei Charles I colocaram em seu lugar o puritano Oliver Cromwell. Cromwell foi muito importante para o pioneirismo da Inglaterra no capitalismo e na Revolução Industrial: ele tornou a Igreja Anglicana ainda mais calvinista e estendeu o seu moralismo a todo o território inglês. Além disso, promulgou os Atos de Navegação, que na prática fortaleceram mais ainda o comércio naval inglês (acabou com a concorrência). Na época de Cromwell ainda foram fundados muitos estabelecimentos ingleses nas colônias da América do Norte e a Jamaica (nas Antilhas) foi conquistada.
*A revolução Gloriosa (nome dado por não ter derramamento de sangue) levou à restauração dos Stuart, mas apenas depois de assinada a Declaração dos Direitos - que na prática tornou a Inglaterra uma monarquia parlamentar. Assim, os burgueses se consolidaram no poder.
*Esses detalhes explicam mais ainda o meu argumento: a Inglaterra pôde ser a pioneira no capitalismo e na Revolução Industrial porque teve elementos do calvinismo consolidados em sua religião oficial. Obviamente que isso também só foi possível porque o país foi o primeiro a fazer uma revolução burguesa, mas é bom lembrar que os burgueses que fizeram essa revolução eram calvinistas.
CORREÇÕES
(Porque é claro que um texto digitado num smartphone 2h da manhã ia ter alguns defeitos...)
*Esqeuci de mencionar que durante o período elizabetano o setor naval cresceu muito - principalmente depois da vitória sobre a Invencível Armada (do rei espanhol Filipe II, que foi marido de Mary I, irmã de Elizabeth). Cabe lembrar que os navios serviam tanto para a guerra quando pro comércio - e este último se desenvolveu bastante.
*Mencionei muito por alto a questão da consolidação da Igreja Anglicana. Vou tentar esclarecer os detalhes: a igreja adotava o sistema de crenças puritano, ou seja, predestinação, valorização do trabalho, salvação somente pela fé, etc etc. Mas mantinha uma estrutura episcopal, ou seja, baseada em bispos nomeados pela rainha. Dois grupos lutavam contra esse modelo de igreja: os presbiterianos (burgueses mais "enricados", defendiam que os bispos deveriam ser nomeados dentro das próprias comunidades) e os puritanos (burgueses mais "radicais" e "menos enricados", defendiam a total eliminação da estrutura episcopal e um contato mais direto entre Deus e homens, mais aos moldes de Lutero; se autodenominavam puritanos porque desejavam purificar a Igreja Anglicana das impurezas episcopais).
*Também falei muito por alto do James Stuart, que asusmiu após a morte da prima Elizabeth I como James I da Inglaterra e da Escócia (unificando enfim os dois reinos contíguos). Ele era protestante (embora sua mãe fosse a católica Mary I, rainha da Escócia, executada por tramar a deposição de Elizabeth I) e tentou estender o anglicanismo (já com feições calvinistas) à Escócia, o que gerou muitos problemas com o Parlamento (principalmente a Câmara dos Comuns).
*Já que eu falei do Parlamento, cabe explicar melhor o seu surgimento e funcionamento: era uma instituição medieval, bicameral (Lordes e Comuns), instituída principalmente depois da Magna Carta (e fortalecida após a Petição de Direitos), e sua principal atribuição era permitir ou proibir o rei de criar novos impostos. Como as despesas dos governos absolutistas eram sempre crescentes (com as guerras e outros problemas) e apenas as rendas dos feudos pertencentes ao rei não bastavam, sempre se precisava convocar o Parlamento para criar uma nova taxa que custearia as despesas. Carlos I (filho do James I) perdeu a cabeça porque não dava certo com o Parlamento e quis impor na Inglaterra um governo absolutista nos moldes do governo francês.
*A revolução Puritana (1640-1660) foi quando a burguesia (gentry e yeomen) depuseram o rei Charles I colocaram em seu lugar o puritano Oliver Cromwell. Cromwell foi muito importante para o pioneirismo da Inglaterra no capitalismo e na Revolução Industrial: ele tornou a Igreja Anglicana ainda mais calvinista e estendeu o seu moralismo a todo o território inglês. Além disso, promulgou os Atos de Navegação, que na prática fortaleceram mais ainda o comércio naval inglês (acabou com a concorrência). Na época de Cromwell ainda foram fundados muitos estabelecimentos ingleses nas colônias da América do Norte e a Jamaica (nas Antilhas) foi conquistada.
*A revolução Gloriosa (nome dado por não ter derramamento de sangue) levou à restauração dos Stuart, mas apenas depois de assinada a Declaração dos Direitos - que na prática tornou a Inglaterra uma monarquia parlamentar. Assim, os burgueses se consolidaram no poder.
*Esses detalhes explicam mais ainda o meu argumento: a Inglaterra pôde ser a pioneira no capitalismo e na Revolução Industrial porque teve elementos do calvinismo consolidados em sua religião oficial. Obviamente que isso também só foi possível porque o país foi o primeiro a fazer uma revolução burguesa, mas é bom lembrar que os burgueses que fizeram essa revolução eram calvinistas.




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