"Estar vivo, enfim, é uma grave responsabilidade."
Lya Luft
"There's no point in living when you can't feel alive."
Garbage, The World Is Not Enough

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Devorando sonhos (segunda versão)

Naquele dia eu acordei toda moída. Era como se eu não tivesse dormido, ou tivesse dormido em cima de cacos de vidro. Não era a primeira vez que acontecia. Mas era a primeira vez que eu acordava praticamente incapacitada. Não consegui me levantar. Gritei, mas não havia ninguém em casa.

Tudo começou justamente quando me separei do André. Comecei a ter pesadelos terríveis dos quais eu não me lembrava ao acordar. E acordar cansada, como se a noite inteira passasse num segundo, numa montanha-russa gigante cheia de loops.

Com muito custo eu me levantei naquela quinta-feira que deveria ser mais um dia normal e chato. Peguei o telefone e um pacote de bolachas recheadas. Não tinha condições de ir trabalhar. Depois de telefonar avisando que iria faltar (e levar uma bronca do chefe, cujo xingamento mais bonitinho foi irresponsável), juntei tudo que eu poderia precisar no criado-mudo e me deitei novamente. Não para dormir. Liguei a televisão.

Isso já está começando a ficar chato. Não aguento mais acordar esgotada todos os dias. Preciso dormir de verdade.

André me ligou hoje. Disse que quer conversar. Mandei ele vir aqui em casa à noite. Ele chegou com a mala, me beijando e dizendo que não consegue ficar longe de mim. Não consegui transar. Estava muito cansada. Dormimos abraçados.

Acordei ainda mais cansada do que antes. O André me levou pro hospital. Ninguém sabe me dizer o que eu tenho. Nem o psiquiatra.

Estou cada dia mais fraca. André tirou uma licença pra cuidar de mim. Estou tomando vitaminas, energéticos, mas nada adianta. Acho que vou morrer.


---------------------------------------------------------------------------------


Aline faleceu há um mês, mas eu sinto como se tivesse sido há quinze minutos. Custei a conseguir dormir, e acordei estafado. Tive pesadelos horríveis, mas não me lembro deles direito. Tinham a ver com Aline, só sei disso. Sinto que tudo isso tem a ver com ela. Ninguém soube explicar a morte da minha mulher. Simplesmente ela morreu de cansaço. E eu estou começando a achar que vou sucumbir ao mesmo destino dela.


---------------------------------------------------------------------------------


Tio André morreu 3 meses depois da sua mulher, a Aline. Ninguém sabe explicar como nem porquê. Eles dormiam e acordavam ainda mais cansados do que antes, até que puf, morreram. Mamãe está louca de tristeza. Tio André era o único irmão dela, e mais novo, mais mimado. Todo mundo na família está muito triste com tudo o que aconteceu.

Mamãe acordou moída hoje de manhã. Estou preocupada. Me lembrei do que aconteceu com tia Aline e tio André. Será que minha mãe tinha contraído a mesma doença? E que doença era esta?

Como os médicos não encontraram nada em tia Aline então eu suspeitei de que eles não conhecessem o que estava acontecendo e como os psicólogos não acharam nenhuma anomalia mental com ela e resolvi fazer algumas pesquisas.

Depois de alguns dias minha mãe foi ao hospital e voltou com o mesmo diagnóstico de tia Aline e tio André, nada. Diziam os médicos que minha mãe era completamente saudável. Receitaram-na uma boa noite de sono e uma licença de uma semana do trabalho. A esta altura eu já tinha me frustrado com minhas pesquisas. Não entendia bem o jargão médico e apesar de 2 dias sentada na frente do computador e mais 1 na biblioteca municipal não consegui mais que receitas de sucos energéticos e dicas de boa alimentação.

Comecei a desconfiar que o que minha mãe tinha não era uma doença, mas algo provocado por outra pessoa como mal olhado ou quem sabe encosto. Sabia que isso era uma ideia idiota e que não tinha nenhum embasamento científico, mas até então a ciência tinha deixado ir meus tios os quais eu amava muito.

Ao voltar da biblioteca para casa fiquei com essas ideias na cabeça e passando perto de um telefone público vi um anuncio que, antes insignificante, chamou-me muito a atenção. Nele tinha escrito:


"Benzimentos, rezas e exorcismos.
Traz a pessoa amada em 4 luas cheias."


E em baixo tinha um numero de telefone.

Enfiei imediatamente as mãos nos bolsos da calça e de lá saíram minhas chaves de casa, um botão velho de uma de minhas camisas, algumas moedas e uma ficha telefônica. Corri em direção ao telefone, inclinei-me sobre as pontas dos pés e disquei rapidamente o número do anúncio.

Uma voz masculina atendeu do outro lado e perguntou qual era meu problema. Tentei explicar o que tinha acontecido com meus tios e quando fui contar o que estava acontecendo com minha mãe, puf! A ligação caiu. O tempo da ficha havia se esgotado. Tive vontade de gritar, de chorar, não conseguir explicar ao homem o que estava acontecendo com minha mãe.

Agachei e abracei as pernas. Engoli o choro e já estava preste a retomar o caminho de volta pra casa quando o telefone tocou. Olhei assustada pra ele, estiquei o braço e tirei-o do gancho.

"Você ainda está ai?", disse a voz do outro lado. Reconheci imediatamente o timbre da voz. Era o mesmo homem que a pouco eu conversara. "Conte-me um pouco mais sobre o estado de sua mãe.". Comecei a contar tudo o que eu sabia sobre os acontecimentos dos últimos quatro meses, desde o rompimento de tia Aline com o tio André até a manhã de hoje, quando minha mãe não conseguiu se levantar da cama para preparar o café da manhã.

O homem concluiu que era uma espécie de infecção esquisita. Devoradores dos sonhos disse ele. Eles se alimentaram das emoções da tia Aline quando ela e o tio André brigaram, sugaram ela toda até matar, e depois parasitaram o tio André quando ela morreu. Parecia ser uma brincadeira de mau gosto. Mas fazia sentido.

Pedi então que ele fosse até lá em casa o mais rápido possível e ele me disse que iria ainda hoje.

Voltei correndo para casa e esperei pelo homem.

Era mais de 17h quando o homem bateu a porta. Já estava quase anoitecendo e o céu esta laranjado. Quando eu o recebi ele disse que se chamava Léo e que tinham requisitado sua visita. Me apresentei como a menina do telefone e ele me deu alguns objetos esquisitos e disse para pendurar nas portas dos quartos da casa. O nome do penduricalho é apanhador de sonhos. Não acreditava nessas besteiras, mas se ele fosse capaz de salvar mamãe, faria qualquer coisa.

Sai correndo pela casa dependurando aquelas coisinhas enquanto Léo se trancava no quanto com minha mãe. Algum tempo depois que o sol se pôs Léo saiu do quarto arrebentado. Disse que os devoradores que infectaram a mamãe (eram três, segundo ele) estavam mortos depois de muita dificuldade. Disse pra eu arranjar mais apanhadores e pendurá-los nas portas de todos os quartos. Depois foi embora.

Dormi tranquila e sem sonhos. Acordei revigorada.



Por Bárbara Guimarães Rocha e Lúcio Joaquim Maia

Devorando sonhos (primeira versão)

Naquele dia eu acordei toda moída. Era como se eu não tivesse dormido, ou tivesse dormido em cima de cacos de vidro. Não era a primeira vez que acontecia. Mas era a primeira vez que eu acordava praticamente incapacitada. Não consegui me levantar. Gritei, mas não havia ninguém em casa.

Tudo começou justamente quando me separei do André. Comecei a ter pesadelos terríveis dos quais eu não me lembrava ao acordar. E acordar cansada, como se a noite inteira passasse num segundo, numa montanha-russa gigante cheia de loops.

Com muito custo eu me levantei naquela quinta-feira que deveria ser mais um dia normal e chato. Peguei o telefone e um pacote de bolachas recheadas. Não tinha condições de ir trabalhar. Depois de telefonar avisando que iria faltar (e levar uma bronca do chefe, cujo xingamento mais bonitinho foi irresponsável), juntei tudo que eu poderia precisar no criado-mudo e me deitei novamente. Não para dormir. Liguei a televisão.

Isso já está começando a ficar chato. Não aguento mais acordar esgotada todos os dias. Preciso dormir de verdade.

André me ligou hoje. Disse que quer conversar. Mandei ele vir aqui em casa à noite. Ele chegou com a mala, me beijando e dizendo que não consegue ficar longe de mim. Não consegui transar. Estava muito cansada. Dormimos abraçados.

Acordei ainda mais cansada do que antes. O André me levou pro hospital. Ninguém sabe me dizer o que eu tenho. Nem o psiquiatra.

Estou cada dia mais fraca. André tirou uma licença pra cuidar de mim. Estou tomando vitaminas, energéticos, mas nada adianta. Acho que vou morrer.

-------------------------------------------------------------------------------------------------

Aline faleceu há um mês, mas eu sinto como se tivesse sido há quinze minutos. Custei a conseguir dormir, e acordei estafado. Tive pesadelos horríveis, mas não me lembro deles direito. Tinham a ver com Aline, só sei disso. Sinto que tudo isso tem a ver com ela. Ninguém soube explicar a morte da minha mulher. Simplesmente ela morreu de cansaço. E eu estou começando a achar que vou sucumbir ao mesmo destino dela.

---------------------------------------------------------------------------------

Tio André morreu 3 meses depois da sua mulher, a Aline. Ninguém sabe explicar como nem porquê. Eles dormiam e acordavam ainda mais cansados do que antes, até que puf, morreram. Mamãe está louca de tristeza. Tio André era o único irmão dela, e mais novo, mais mimado. Todo mundo na família está muito triste com tudo o que aconteceu.

Recebi um e-mail estranho ontem. Anônimo. Seja lá quem for disse que o Tio André e a tia Aline morreram de uma infecção esquisita. Devoradores dos sonhos, dizia o e-mail. Eles se alimentaram das emoções da tia Aline quando ela e o tio André brigaram, sugaram ela toda até matar, e depois parasitaram o tio André quando ela morreu. Deve ser uma brincadeira de mau gosto. Mas faz sentido.

Mamãe acordou moída hoje de manhã. Estou preocupada. Mandei uma resposta ao e-mail anônimo esquisito pedindo ajuda pra me livrar dos tais devoradores antes que mamãe morra também.

O cara disse que se chama Léo e que caça devoradores. Me deu um objeto esquisito e disse pra pendurar na porta do quarto da mamãe. O nome do penduricalho é apanhador dos sonhos. Não acredito nessas besteiras, mas se ele for capaz de salvar mamãe, faço qualquer coisa.

Depois de algumas horas, Léo saiu do quarto arrebentado. Disse que os devoradores que infectaram a mamãe (eram três, segundo ele) estavam mortos depois de muita dificuldade. Disse pra eu arranjar mais apanhadores e pendurá-los na porta dos quartos. Depois foi embora.

Dormi tranquila e sem sonhos. Acordei revigorada.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Lágrimas e Chuva



Eu perco o sono e choro
Sei que quase desespero
Mas não sei porque

A noite é muito longa
Eu sou capaz de certas coisas
Que eu não quis fazer

Será que alguma coisa nisso tudo faz sentido?
A vida é sempre um risco
Eu tenho medo do perigo

Lágrimas e chuva molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê

O mundo é muito injusto
Eu dou plantão dos meus problemas
Que eu quero esquecer

Será que existe alguém
Ou algum motivo importante
Que justifique a vida
Ou pelo menos esse instante

Eu vou contando as horas
E fico ouvindo passos
Quem sabe o fim da história
De mil e uma noites de suspense no meu quarto

[by Leoni/Kid Abelha]

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Desabafo

Voltar para casa?
Não. Não é isso.
Antigamente eu pensava assim, agora já nem sei.
Não tenho mais casa. Nem aqui nem lá.
Não tenho mais lugar pra chamar de meu.

Vai ser mais uma semana sozinha. Apenas isso.
Sozinha nesse caso é bom e ruim.
Estarei livre por mais 10 dias da minha vó.
Mas estarei pelo menos 7 dias sem o Lúcio.
Nunca ficamos mais do que 4 dias separados desde que estamos juntos até então.

Todos os dias eu me pergunto que raios eu ainda estou fazendo aqui.
Num curso que já não me satisfaz, num lugar desconhecido, grande, feio, assustador.
Num ambiente de campo de concentração.
Não tem mais nada que me prende aqui, já que nem estudando mais eu to.

Odeio ser comodista. A palavra pela qual estive buscando todos esses anos é essa.
Não é niilista, nem pessismista. Comodista. Covarde.
Mesmo achando tudo isso uma merda sem fim eu continuo.
Não sei viver de outro jeito, nem sei mudar.
No fim das contas nem quero. Muito mais fácil fugir. Muito mais fácil se esconder.
E é exatamente isso o que eu ando fazendo da minha vida.

Uma grande rota de fuga de nada para lugar nenhum.
And the reasons? There are no reasons.
É apenas tédio e medo mesmo.

Não consigo nem mesmo pôr um fim nisso tudo.
Outro dia eu liguei o gás. Estava sozinha em casa e muito, muito puta.
Mas acabei desligando.
Não consigo. Sou uma inútil incapaz de viver e de morrer. Um bicho.

E não tenho nada. Nem família, nem dinheiro, nem confiança. Só essa vontade estéril de acabar com tudo.

Me deslocar 120km de volta pra Divinópolis não vai mudar nada. Nada.
Os problemas viajam junto comigo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Pós-Modernismo: fim da história?

Em 1989 foi lançado o livro "O fim da história e o último homem" de Francis Fukuyama, funcionário do departamento de Estado norte-americano. O autor diz que nunca mais haverá profundas transformações históricas. O capitalismo liberal é a sociedade final. A partir de agora, todos devemos esquecer as lutas políticas, os debates filosóficos e as realizações artísticas de vanguarda. Os conformistas do nosso tempo são os únicos sensatos. Os mauricinhos são os únicos heróis. O objetivo da vida é fazer compras nos shopping centers, assistir TV, andar na moda e votar nos candidatos liberais. Admirável mundo novo!

Pensadores como François Lyotard, Gilles Lipovtsky, Jean Baudrillard*, Alvin Toffler, Daniel Bill, Christopher Lash, Jacques derrida e outros contribuem para a ideia de que vivemos uma nova etapa na história: a era da pós-modernidade.

A modernidade alcançou seu apogeu com o triunfo do capitalismo e da civilização industrial. Na civilização pós-moderna que atingimos, o setor terciário (serviços) da economia supera o secundário (indústria). A vanguarda não estaria mais nas fábricas, nos motores e nas metalúrgicas, mas nos computadores, nos sistemas de informação e transportes, nas comunicações, na publicidade, nos centros financeiros. O proletariado, classe revolucionária da modernidade, simplesmente desaparece. Os robôs farão todo o trabalho braçal.

Na modernidade havia grandes movimentos de massas como a luta pelos direitos democráticos, pela emancipação nacional, pelo socialismo, peloss direitos civis dos negros, contra o fascismo. Teorias sociais (como o iluminismo e o marxismo) buscavam explicar a totalidade dos movimentos históricos. Na pós-modernidade ninguém acredita em movimentos coletivos. Não existe mais nenhum ideal político grandioso. As revoluções sociais são rejeitadas com ironia. As pessoas querem que o Estado seja substituido por empresas particulares. No futuro pós-moderno até as penitenciárias, os hospícios e os exércitos (que continuarão existindo...) serão geridos pela iniciativa privada. Vale o indivíduo que se valoriza acima de tudo. O narcisismo (amor por si mesmo) é cultivado como regra moral básica: "só acredito em mim mesmo", "nada deve impedir minha satisfação pessoal", "é preciso investirmos em nós mesmos porque nós somos os nosso próprio capital" são as expressões consagradas. Comprar, consumir, aperfeiçoar seu corpo e alma para se automar de forma egoísta são as metas consagradas do mundo pós-moderno.

Na pós-modernidade impera a cultura do simulacro. O que é isso? A simulação da realidade. Por exemplo, uma foto de uma mulher não é a realidade da mulher, mas a simulação dela. No pós-modernismo a simulação é essencial. A realidade se dessubstancializa, ou seja, perde sua fluidez e importância. Vale apenas a superfície, a publicidade, a imagem criada. Na modernidade, comprávamos uma roupa por sua qualidade e preço. Na pós-modernidade é mais importante ainda o que a calça simula ser e que é transmitido pelo signo da marca, da griffe famosa e o que ela transmite: um tipo de personalidade (que usa aquela roupa, aquela marca), uma postura, um nível social, etc. A realidade é cada vez mais virtual vivos no espa, ou seja, simulada. Estão aí o cinema, a TV, os jogos eletrônicos que botam você num safári na África, numa espaçonave ou no fundo da Terra. Repare bem: simulacro NÃO é uma ilusão, é um outro tipo de realidade, por isso chamada de virtual. Quando alguém caça monstros num computador (com som e imagem cada vez melhores), ele realmente tem as mesmas emoções que teria se estivesse caçando monstros de verdade. Com um detalhe: monstros não existem no real, mas certamente são bemço virtual. Portanto, o pós-modernismo cria um novo tempo e um novo espaço totalmente inimagináveis no passado.

Através das redes de comunicacão por computador (Internet) há pessoas que se conhecem e namoram sem jamais terem se visto na vida. O amor e o sexo pós-moderno são simulacros também. Porque mesmo que você esteja em contato físico com alguém, no fundo estará fazendo amor apenas consigo mesmo. O outro só existe para confirmar seu universo narcisístico.

Há algo de estranho nisso tudo. Porque bilhões de seres humanos continuam ameaçados pela miséria, pela destruição ambiental e pela guerra. Talvez eles não caibam no escritório refrigerado do Sr. Fukuyama... Enfim, será que a História nos autoriza a fazer juízos definitivos? Para o filósofo alemão Jürgen Habermas**, que critica as teorias do pós-modernismo, o projeto iluminista da modernidade como predomínio da razão, da livre comunicação entre os homens e do progresso ainda é válido porque não foi realizado.

Por que há fome no mundo atualmente? Não pense que é por falta de comida. Isso mesmo: o mundo já produz, neste instante, mais do que o necessário para alimentar a todos. Isso está mostrado por estudos da ONU. O que falta não é a produção maior, mas sim a justa distribuição de renda e alimentos no planeta inteiro.

O Terceiro Mundo jamais poderá alcançar o atual estágio de desenvolvimento do Primeiro Mundo. O motivo é que o Primeiro Mundo possui 15% da população mundial e consome mais de 50% dos recursos naturais do planeta. Conclusão: não existem recursos disponíveis no mundo para fazer com que todos as pessoas tenham um alto nível de consumo. Porque os recursos são limitados. Imagine que, de repente, todos os países tenham o nível do Primeiro Mundo. Simplesmente, os gastos astronômicos, o desperdício fanático do consumismo, esgotariam as reservas mundiais de petróleo e matérias-primas em poucos anos. O alto padrão de consumo do Primeiro Mundo só se sustenta por causa da pobreza do Terceiro Mundo. Assim, o mundo só alcançará um padrão decente de vida se os países ricos dexarem de ser tão esbanjadores. O grande problema dos tempos atuais NÃO é o aumento da produção, mas a melhor distribuição dos bens. Será que o modelo de capitalismo liberal dos EUA estimula isso? Provavelmente não. Basta recordar que os EUA, na conferência da ONU para o meio-ambiente, no Rio de Janeiro, a ECO-92, vetou todas as medidas de proteção ecológica que prejudicassem os investimentos das grandes empresas norte-americanas. Os lucros continuam mais importantes do que a sobrevivência da humanidade. Até quando?

Felizmente, mudar as coisas só depende de nós. Começaremos a mudá-las quando adquirirmos consciência crítica da realidade. Como disse o filósofo alemão Hegel, o escravo só começa a se libertar no dia em que passa a pensar diferente do seu senhor.

[by Mario Furley Schmidt. Excerto do último capítulo do livro "Nova História Crítica - Moderna e Contemporânea", páginas 334-335. Os grifos são meus.]

*Jean Baudrillard, filósofo francês, elaborou a teoria do simulacro que influenciou em parte o filme Matrix.

**Jürgen Habermas, filósofo alemão da Escola de Frankfurt, é considerado o "último grande racionalista" e desenvolveu a teoria da razão dialógica.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Só de sacanagem

Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

[by Elisa Lucinda]

Nitidez

O mundo fica tão mais colorido e bonito e nítido quando míopes como eu usam óculos pela primeira vez.

Tomei vergonha na cara, depois de uns 2 anos reclamando de vista ruim pra longe, e fui num técnico em optometria hoje de manhã. Ele detectou 1,75 grau de miopia no olho esquerdo e 1,50 no direito, além de astigmatismo, 0,50 de cada lado. O astigmatismo eu nem sabia que tinha. Diz o Kristiano (o cara que me atendeu) que minhas dores de cabeça e a lacrimejação exagerada vão melhorar com o tempo.

Pior é pra andar, o chão parece mais alto, eu to pisando em falso o tempo todo.

O Lúcio fica testando minha visão desde que começamos a namorar. Ele me aponta placas, outdoors, anúncios, ônibus, etc, e vê se eu consigo enxergar direito e/ou ler o que tiver escrito. Hoje eu consegui ler quase tudo que ele mandou. Tava parecendo menino pequeno quando ta aprendendo a ler e fica lendo tudo na rua. Lindo. Cada detalhe das copas das árvores e das rachaduras dos prédios, cada letrinha pequena dos cartazinhos de madames trago-a-pessoa-amada-em-3-dias pregados nos postes. Como eu enxergava mal e embaçado!

Diz o Isac, que eu encontrei hoje por acaso na rodoviária depois de um tempo sumido, que eu to com cara de nerd. Fazer o quê, né.

Vou ter que usar os óculos direto e diariamente, não apenas para andar na rua como também pra assistir aula e ler.

Quem mandou nascer com o globo ocular defeituoso!

domingo, 5 de abril de 2009

Associação livre

Desviando um pouco dos rumos que tentei seguir nos últimos meses, sem nenhum ânimo para tentar inventar algo de novo...

A semana de folga que parecia ser um intervalo de paz num oceano de desgraças que se tornou o ano de 2009 em Belo Horizonte mostrou-se depósito de mais desgraças ainda. Problemas familiares extremamente difíceis de ser resolvidos exatamente por mexerem nesse âmbito complicado estão me assolando. E minha mãe acha que estou triste e sem apetite porque o Lúcio ainda não me ligou.

[Claro que se ele tivesse ligado, muito provavelmente eu não estaria triste. O Lúcio tem o incrível dom de me fazer me sentir bem, feliz e realizada quando estou ao lado dele.]

Mas não estou assim por causa dele. Nem por causa de ninguém, acho. Simplesmente não tenho apetite e meu sono está alterado. Estar sozinha apenas piora os sintomas. Ter acabado de ler das Parfum pela milésima vez em poucas horas só me faz me sentir mais inútil, sozinha e triste. Não tenho saco pra ler, nem pra escrever, e nem sei ainda o que eu estou fazendo nesse computador que não tem nada de interessante. Relembrando um verso de um poema que escrevi uns quatro anos atrás, numas férias que estava passando em Beagá: "Tudo se contrai em tédio e solidão".

Estou apenas me sentindo sozinha, é isso. Só pode ser isso. Não tenho outra explicação pra esse vazio, que não é fome, que eu sinto. Duvido um pouco que seja mais uma das minhas inúmeras crises. Deve ser essa solidão. Esse não ter nada de interessante pra fazer, nem ninguém pra conversar.

Odeio domingo à tarde. E parece que essa situação desesperadora me persegue, onde quer que eu vá. 120km não são muita coisa, no fim das contas.
"Espero que a partida seja boa. E espero não voltar nunca mais."
Frida Kahlo