Naquele dia eu acordei toda moída. Era como se eu não tivesse dormido, ou tivesse dormido em cima de cacos de vidro. Não era a primeira vez que acontecia. Mas era a primeira vez que eu acordava praticamente incapacitada. Não consegui me levantar. Gritei, mas não havia ninguém em casa.
Tudo começou justamente quando me separei do André. Comecei a ter pesadelos terríveis dos quais eu não me lembrava ao acordar. E acordar cansada, como se a noite inteira passasse num segundo, numa montanha-russa gigante cheia de loops.
Com muito custo eu me levantei naquela quinta-feira que deveria ser mais um dia normal e chato. Peguei o telefone e um pacote de bolachas recheadas. Não tinha condições de ir trabalhar. Depois de telefonar avisando que iria faltar (e levar uma bronca do chefe, cujo xingamento mais bonitinho foi irresponsável), juntei tudo que eu poderia precisar no criado-mudo e me deitei novamente. Não para dormir. Liguei a televisão.
Isso já está começando a ficar chato. Não aguento mais acordar esgotada todos os dias. Preciso dormir de verdade.
André me ligou hoje. Disse que quer conversar. Mandei ele vir aqui em casa à noite. Ele chegou com a mala, me beijando e dizendo que não consegue ficar longe de mim. Não consegui transar. Estava muito cansada. Dormimos abraçados.
Acordei ainda mais cansada do que antes. O André me levou pro hospital. Ninguém sabe me dizer o que eu tenho. Nem o psiquiatra.
Estou cada dia mais fraca. André tirou uma licença pra cuidar de mim. Estou tomando vitaminas, energéticos, mas nada adianta. Acho que vou morrer.
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Aline faleceu há um mês, mas eu sinto como se tivesse sido há quinze minutos. Custei a conseguir dormir, e acordei estafado. Tive pesadelos horríveis, mas não me lembro deles direito. Tinham a ver com Aline, só sei disso. Sinto que tudo isso tem a ver com ela. Ninguém soube explicar a morte da minha mulher. Simplesmente ela morreu de cansaço. E eu estou começando a achar que vou sucumbir ao mesmo destino dela.
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Tio André morreu 3 meses depois da sua mulher, a Aline. Ninguém sabe explicar como nem porquê. Eles dormiam e acordavam ainda mais cansados do que antes, até que puf, morreram. Mamãe está louca de tristeza. Tio André era o único irmão dela, e mais novo, mais mimado. Todo mundo na família está muito triste com tudo o que aconteceu.
Mamãe acordou moída hoje de manhã. Estou preocupada. Me lembrei do que aconteceu com tia Aline e tio André. Será que minha mãe tinha contraído a mesma doença? E que doença era esta?
Como os médicos não encontraram nada em tia Aline então eu suspeitei de que eles não conhecessem o que estava acontecendo e como os psicólogos não acharam nenhuma anomalia mental com ela e resolvi fazer algumas pesquisas.
Depois de alguns dias minha mãe foi ao hospital e voltou com o mesmo diagnóstico de tia Aline e tio André, nada. Diziam os médicos que minha mãe era completamente saudável. Receitaram-na uma boa noite de sono e uma licença de uma semana do trabalho. A esta altura eu já tinha me frustrado com minhas pesquisas. Não entendia bem o jargão médico e apesar de 2 dias sentada na frente do computador e mais 1 na biblioteca municipal não consegui mais que receitas de sucos energéticos e dicas de boa alimentação.
Comecei a desconfiar que o que minha mãe tinha não era uma doença, mas algo provocado por outra pessoa como mal olhado ou quem sabe encosto. Sabia que isso era uma ideia idiota e que não tinha nenhum embasamento científico, mas até então a ciência tinha deixado ir meus tios os quais eu amava muito.
Ao voltar da biblioteca para casa fiquei com essas ideias na cabeça e passando perto de um telefone público vi um anuncio que, antes insignificante, chamou-me muito a atenção. Nele tinha escrito:
"Benzimentos, rezas e exorcismos.
Traz a pessoa amada em 4 luas cheias."
E em baixo tinha um numero de telefone.
Enfiei imediatamente as mãos nos bolsos da calça e de lá saíram minhas chaves de casa, um botão velho de uma de minhas camisas, algumas moedas e uma ficha telefônica. Corri em direção ao telefone, inclinei-me sobre as pontas dos pés e disquei rapidamente o número do anúncio.
Uma voz masculina atendeu do outro lado e perguntou qual era meu problema. Tentei explicar o que tinha acontecido com meus tios e quando fui contar o que estava acontecendo com minha mãe, puf! A ligação caiu. O tempo da ficha havia se esgotado. Tive vontade de gritar, de chorar, não conseguir explicar ao homem o que estava acontecendo com minha mãe.
Agachei e abracei as pernas. Engoli o choro e já estava preste a retomar o caminho de volta pra casa quando o telefone tocou. Olhei assustada pra ele, estiquei o braço e tirei-o do gancho.
"Você ainda está ai?", disse a voz do outro lado. Reconheci imediatamente o timbre da voz. Era o mesmo homem que a pouco eu conversara. "Conte-me um pouco mais sobre o estado de sua mãe.". Comecei a contar tudo o que eu sabia sobre os acontecimentos dos últimos quatro meses, desde o rompimento de tia Aline com o tio André até a manhã de hoje, quando minha mãe não conseguiu se levantar da cama para preparar o café da manhã.
O homem concluiu que era uma espécie de infecção esquisita. Devoradores dos sonhos disse ele. Eles se alimentaram das emoções da tia Aline quando ela e o tio André brigaram, sugaram ela toda até matar, e depois parasitaram o tio André quando ela morreu. Parecia ser uma brincadeira de mau gosto. Mas fazia sentido.
Pedi então que ele fosse até lá em casa o mais rápido possível e ele me disse que iria ainda hoje.
Voltei correndo para casa e esperei pelo homem.
Era mais de 17h quando o homem bateu a porta. Já estava quase anoitecendo e o céu esta laranjado. Quando eu o recebi ele disse que se chamava Léo e que tinham requisitado sua visita. Me apresentei como a menina do telefone e ele me deu alguns objetos esquisitos e disse para pendurar nas portas dos quartos da casa. O nome do penduricalho é apanhador de sonhos. Não acreditava nessas besteiras, mas se ele fosse capaz de salvar mamãe, faria qualquer coisa.
Sai correndo pela casa dependurando aquelas coisinhas enquanto Léo se trancava no quanto com minha mãe. Algum tempo depois que o sol se pôs Léo saiu do quarto arrebentado. Disse que os devoradores que infectaram a mamãe (eram três, segundo ele) estavam mortos depois de muita dificuldade. Disse pra eu arranjar mais apanhadores e pendurá-los nas portas de todos os quartos. Depois foi embora.
Dormi tranquila e sem sonhos. Acordei revigorada.
Por Bárbara Guimarães Rocha e Lúcio Joaquim Maia
Tudo começou justamente quando me separei do André. Comecei a ter pesadelos terríveis dos quais eu não me lembrava ao acordar. E acordar cansada, como se a noite inteira passasse num segundo, numa montanha-russa gigante cheia de loops.
Com muito custo eu me levantei naquela quinta-feira que deveria ser mais um dia normal e chato. Peguei o telefone e um pacote de bolachas recheadas. Não tinha condições de ir trabalhar. Depois de telefonar avisando que iria faltar (e levar uma bronca do chefe, cujo xingamento mais bonitinho foi irresponsável), juntei tudo que eu poderia precisar no criado-mudo e me deitei novamente. Não para dormir. Liguei a televisão.
Isso já está começando a ficar chato. Não aguento mais acordar esgotada todos os dias. Preciso dormir de verdade.
André me ligou hoje. Disse que quer conversar. Mandei ele vir aqui em casa à noite. Ele chegou com a mala, me beijando e dizendo que não consegue ficar longe de mim. Não consegui transar. Estava muito cansada. Dormimos abraçados.
Acordei ainda mais cansada do que antes. O André me levou pro hospital. Ninguém sabe me dizer o que eu tenho. Nem o psiquiatra.
Estou cada dia mais fraca. André tirou uma licença pra cuidar de mim. Estou tomando vitaminas, energéticos, mas nada adianta. Acho que vou morrer.
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Aline faleceu há um mês, mas eu sinto como se tivesse sido há quinze minutos. Custei a conseguir dormir, e acordei estafado. Tive pesadelos horríveis, mas não me lembro deles direito. Tinham a ver com Aline, só sei disso. Sinto que tudo isso tem a ver com ela. Ninguém soube explicar a morte da minha mulher. Simplesmente ela morreu de cansaço. E eu estou começando a achar que vou sucumbir ao mesmo destino dela.
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Tio André morreu 3 meses depois da sua mulher, a Aline. Ninguém sabe explicar como nem porquê. Eles dormiam e acordavam ainda mais cansados do que antes, até que puf, morreram. Mamãe está louca de tristeza. Tio André era o único irmão dela, e mais novo, mais mimado. Todo mundo na família está muito triste com tudo o que aconteceu.
Mamãe acordou moída hoje de manhã. Estou preocupada. Me lembrei do que aconteceu com tia Aline e tio André. Será que minha mãe tinha contraído a mesma doença? E que doença era esta?
Como os médicos não encontraram nada em tia Aline então eu suspeitei de que eles não conhecessem o que estava acontecendo e como os psicólogos não acharam nenhuma anomalia mental com ela e resolvi fazer algumas pesquisas.
Depois de alguns dias minha mãe foi ao hospital e voltou com o mesmo diagnóstico de tia Aline e tio André, nada. Diziam os médicos que minha mãe era completamente saudável. Receitaram-na uma boa noite de sono e uma licença de uma semana do trabalho. A esta altura eu já tinha me frustrado com minhas pesquisas. Não entendia bem o jargão médico e apesar de 2 dias sentada na frente do computador e mais 1 na biblioteca municipal não consegui mais que receitas de sucos energéticos e dicas de boa alimentação.
Comecei a desconfiar que o que minha mãe tinha não era uma doença, mas algo provocado por outra pessoa como mal olhado ou quem sabe encosto. Sabia que isso era uma ideia idiota e que não tinha nenhum embasamento científico, mas até então a ciência tinha deixado ir meus tios os quais eu amava muito.
Ao voltar da biblioteca para casa fiquei com essas ideias na cabeça e passando perto de um telefone público vi um anuncio que, antes insignificante, chamou-me muito a atenção. Nele tinha escrito:
"Benzimentos, rezas e exorcismos.
Traz a pessoa amada em 4 luas cheias."
E em baixo tinha um numero de telefone.
Enfiei imediatamente as mãos nos bolsos da calça e de lá saíram minhas chaves de casa, um botão velho de uma de minhas camisas, algumas moedas e uma ficha telefônica. Corri em direção ao telefone, inclinei-me sobre as pontas dos pés e disquei rapidamente o número do anúncio.
Uma voz masculina atendeu do outro lado e perguntou qual era meu problema. Tentei explicar o que tinha acontecido com meus tios e quando fui contar o que estava acontecendo com minha mãe, puf! A ligação caiu. O tempo da ficha havia se esgotado. Tive vontade de gritar, de chorar, não conseguir explicar ao homem o que estava acontecendo com minha mãe.
Agachei e abracei as pernas. Engoli o choro e já estava preste a retomar o caminho de volta pra casa quando o telefone tocou. Olhei assustada pra ele, estiquei o braço e tirei-o do gancho.
"Você ainda está ai?", disse a voz do outro lado. Reconheci imediatamente o timbre da voz. Era o mesmo homem que a pouco eu conversara. "Conte-me um pouco mais sobre o estado de sua mãe.". Comecei a contar tudo o que eu sabia sobre os acontecimentos dos últimos quatro meses, desde o rompimento de tia Aline com o tio André até a manhã de hoje, quando minha mãe não conseguiu se levantar da cama para preparar o café da manhã.
O homem concluiu que era uma espécie de infecção esquisita. Devoradores dos sonhos disse ele. Eles se alimentaram das emoções da tia Aline quando ela e o tio André brigaram, sugaram ela toda até matar, e depois parasitaram o tio André quando ela morreu. Parecia ser uma brincadeira de mau gosto. Mas fazia sentido.
Pedi então que ele fosse até lá em casa o mais rápido possível e ele me disse que iria ainda hoje.
Voltei correndo para casa e esperei pelo homem.
Era mais de 17h quando o homem bateu a porta. Já estava quase anoitecendo e o céu esta laranjado. Quando eu o recebi ele disse que se chamava Léo e que tinham requisitado sua visita. Me apresentei como a menina do telefone e ele me deu alguns objetos esquisitos e disse para pendurar nas portas dos quartos da casa. O nome do penduricalho é apanhador de sonhos. Não acreditava nessas besteiras, mas se ele fosse capaz de salvar mamãe, faria qualquer coisa.
Sai correndo pela casa dependurando aquelas coisinhas enquanto Léo se trancava no quanto com minha mãe. Algum tempo depois que o sol se pôs Léo saiu do quarto arrebentado. Disse que os devoradores que infectaram a mamãe (eram três, segundo ele) estavam mortos depois de muita dificuldade. Disse pra eu arranjar mais apanhadores e pendurá-los nas portas de todos os quartos. Depois foi embora.
Dormi tranquila e sem sonhos. Acordei revigorada.
Por Bárbara Guimarães Rocha e Lúcio Joaquim Maia

