"Pelos caminhos do mundo
Nenhum destino se perde
Há os grandes sonhos dos homens
E a surda força dos vermes."
Cecília Meireles

domingo, 21 de dezembro de 2008

Fairy Tale...

Estava tarde. Era uma noite relativamente fria, nublada, mas sem chuva.
Eles estavam praticamente abraçados sentados na escada mais famosa da cidade. Um tanto calados, é verdade, e isso não era nem um pouco normal. Alguma coisa estava fora do lugar.
Eles se encararam, e para cortar o clima de timidez, ela diz:

- Quem piscar primeiro perde!

E ficou olhando dentro dos olhos castanhos do amigo. E ele diz:

- Mas valendo o quê?
- Ah... Nada não...
- Mas tem que valer alguma coisa!
- O que então?
- Um beijo.
- Pode ser.

Eles se encaram por poucos segundos. Ele pisca primeiro. Por querer.

- Ah! Assim não vale! Você piscou por querer!
- Se não quiser pagar a aposta, tudo bem...
- Mas eu quero!

E eles se beijam. O primeiro de muitos outros beijos que se seguiriam.

E pra quem queria apenas sorte no jogo... Ter sorte nos dois é até interessante...

sábado, 20 de dezembro de 2008

Uma palavra

Ganhei.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Enquanto isso o rio Itapecerica transborda...

Marquei de juntar a turma do RPG no costa ontem à noite pros meninos conhecerem o Jean, o cara q eu arrumei pra mestrar. Foram apenas o Lúcio e o Ronaldo (milagre!). Depois de conversar um pouco e acertar a data da primeira sessão (sexta-feira às 18h30 na pça do santuário), eu, o Ronaldo e o Lúcio resolvemos ir embora. Eu não tinha absolutamente nada pra fazer então quando o Lúcio me convidou pra ir fazer nada com ele na casa dele eu topei. Subimos os três, na chuva, nos separamos na esquina, e eu fui seguindo com o Lúcio. Assistimos um filme brasileiro muito louco chamado Nina (mas vou falar disso depois).

Quando o filme acabou eu tava querendo ir embora, mas a chuva tava MUITO forte, eu tava sem guarda-chuva, então resolvi esperar parar. To esperando parar até agora, pra dizer a verdade. A chuva não passava e eu fui ficando, fui ficando, até o dia clarear e ter ônibus pra eu ir embora.

E, diga-se de passagem, foi uma noite bastante produtiva.
Um MSN ao vivo, quase. Mas sem Uno ou buraco.

Eu: Arrumou alguma candidata, Lúcio?
Lúcio: Ainda não.
Eu: Nem procurou também, né?
Lúcio: Ah... To esquentando com isso não...
Eu: Sei como que é...
Lúcio: Quer se candidatar?
Eu: Até que rolava...
Lúcio faz uma cara esquisita pra mim.
Eu: Que que tem que pôr no formulário mesmo?
Lúcio: Vou te mandar lá o formulário, aí você preenche as três vias e registra no cartório...
Eu: Mas eu nunca registrei minha assinatura no cartório...
Lúcio: Tem que registrar então...
Eu: Huahuahauhauah
Lúcio: Tava pensando aqui... Aquela música da mulher perfeita... Tem que gostar de futebol...
Eu: Ah! Então eu sou perfeita! Huhauhauahuah
Lúcio: É... Mas tem um defeito: ser atleticana
Eu: ¬¬
Lúcio: Huhauauhauahuahuahuah
Eu: Mas eu gosto de Matanza. Isso é uma qualidade! Tem poucas mulheres que gostam. E fui no show deles! Tem menos mulheres ainda que foram num show do Matanza...

Nesse ponto o assunto desvia pro show do Matanza em BH.

Acho que não deixei muito bem claro que tava falando sério com ele a respeito de me candidatar. Ele me chamou pra sair hoje ou amanhã. Tenho que aproveitar a oportunidade pra resolver isso o mais rápido possível. Mas como?

=D

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Faces da Morte II

A lua pairava, alaranjada, seu reflexo ondulado no leito do rio calmo. Nem tão calma era a cidade ao redor do rio, fervilhando de gentes e de bichos. Naquele ano de 1326, Praga era uma cidade como as outras de sua época, infestada de ratos e bactérias e protozoários, um grande reservatório de doenças contagiosas. Os seres humanos, mais aparentados com os bichos, viviam amontoados sem o menor asseio. Morria-se de velhice antes dos trinta. Morria-se antes mesmo de nascer. A fome e a peste espreitavam as esquinas.

A morte é uma figura bem conhecida desse povo, num momento em que medicina e charlatanismo se confundiam. Naquela noite em Praga, a lua alaranjada ondulando sobre o Vltava, um enterro noturno passava pelo labirinto. Morrera o primogênito de um artesão local, a Dama Inexorável o arrebatou ainda na segunda infância. Os uivos de dor da jovem mãe ecoavam até perto das planícies a leste. Acostuma-se com a banalização da passagem, tão numerosos são os caminhos que até ela levam, mas a dor que ela causa nunca cessa.

Anatole estava solitário à beira do Vltava, ouvindo ao longe os testemunhos da dor de uma mãe que perde seu primogênito para a morte tão cedo, e pensava. Pensava em como as coisas seria diferentes se ele tivesse seguido por outros caminhos. Antecipando Ofélia em alguns séculos, em alguns instantes Anatole se jogaria no rio. Ele sabia que o Inferno o aguardava, como a todos os outros suicidas. O maior pecado que se poderia cometer era deliberadamente abrir mão do dom mais precioso ofertado por Deus, escarnecer do Seu maior presente. Em parte, Anatole ainda tremia ao pensar que ele estava traindo ao Senhor, abdicando de sua missão. Ele estava abandonando uma vida miserável por uma eternidade de sofreimentos abomináveis perpetrados por sua insubordinação.

Ele pensava nos gritos de sua mãe ao vê-lo morto. Em sua cova proscrita, longe do solo sagrado dos cemitérios, sem nenhum tipo de identificação. Ele pensava, mais do que tudo, em sua morte. A água em seus pulmões, a respiração impedida, a dor que ele sentiria.Sua existência toda até ali fora uma grande cadeia de sucessivas dores. Sua existência posterior seria uma grande provação eterna. Que diferença iria fazer aquela pequena dor a mais?

Anatole se ergueu, tomou uma longa e última inspiração, fechou os olhos, e pulou.

A água era gelada. O vento era cortante. Mas a noite era doce e a lua brilhava alaranjada no céu. Perdão, Senhor, por esta última ofensa.

[Divinópolis, 08/12/08]

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Urlaub

Uma semana sem postar.
As férias fazem isso comigo.
Some: dividir a internet + preguiça de pensar + preguiça de ligar meu notebook no quarto do meu irmão + sono visceral + planos e mais planos sendo arquitetados...

Enfim: sem saco nenhum pra pensar em algo legal pra por aqui.

Por enquanto eu dou um aviso: estou viva, e bem, e planejando muitas coisas para os próximos 3 meses...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Pies descalzos, sueños blancos





Perteneciste a una raza antigua
De pies descalzos e de sueños blancos
Fuiste polvo, polvo eres, piensa
Que el hierro siempre al calor es blando

Tú mordiste la manzana
Y renunciaste al paraíso
Y condenaste a una serpiente
Siendo tú el que así lo quiso

Por milenios y milenios
Permaneciste desnudo
Y te enfrentaste a dinosaurios
Bajo un techo y sín escudo

Y ahora estás aquí
Queriendo ser feliz
Cuando no te importó un pepino
Tu destino

Perteneciste a una raza antigua
De pies descalzos y de sueños blancos
Fuiste polvo, polvo eres, piensa
Que el hierro siempre al calor es blando

Construiste un mundo exacto
De acabados tan perfectos
Cada cosa calculada
En su espacio y a su tiempo

Yo que soy un caos completo
Las entradas, las salidas
Los nombres y las medidas
No me caben en los sesos

Y ahora estás aquí
Queriendo ser feliz
Cuando no te importó un pepino
Tu destino

Perteneciste a una raza antigua
De pies descalzos y de sueños blancos
Fuiste polvo, polvo eres, piensa
Que el hierro siempre al calor es
Perteneciste a una raza antigua
De pies descalzos y de sueños blancos
Fuiste polvo, polvo eres, piensa
Que el hierro siempre al calor es blando

Saludar al vecino
Acostarse a una hora
Trabajar cada día
Para vivir en la vida
Contestar sólo aquello
Y sentir sólo esto
Y que Dios nos ampare
De malos pensamientos
Cumplir con las tareas
Asistir al colegio
Que diría la familia
Si eres un fracasado?
Ponte siempre zapatos
No hagas ruido en la mesa
Usa medias veladas
Y corbata en las fiestas
Las mujeres se casan
Siempre antes de treinta
Si no vestirán santos
Y aunque así no lo quieran
Y en la fiesta de quince
Es mejor no olvidar
Una fina champaña
Y bailar bien el vals
Y bailar bien el vals

[By Shakira Mebarak]

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Excursus

Depois de uma longa noite de sono (que não descansou uma célula sequer do meu corpo), eu despertei.
Despertei e era eu. Eu.
Eu quem?
Eu tudo. Eu apenas. Eu semente e fruto colhido no pomar decadente. Eu tempestade e treva. Eu luz. Eu nada.


Esperei.
A ressaca do sono era pior que do álcool ingerido em excesso naquele dia no bar onde estávamos todos (aparentemente) felizes e eu era a única que lembrava que vamos todos morrer.
Sim, eu me lembrava. Na verdade, eu nunca esqueço. Tenho até um pouco inveja de vocês que conseguem conviver tão bem com isso, simplesmente denegando a possibilidade da extinção final, onde tudo será esquecido, nada será reparado, e Nietzsche sabe o resto.
Eu estava sentada à beira do rio sujo que um dia tinha sido bonito e límpido, e esperava. Esperava a ressaca passar, um pouco esperando a vida passar tambem, silenciosa e indolor, como o rio. Mas a vida não passava. Ou melhor, passava, mas eu nem senti. O vento soprava na superfície da água calma e suja, e fazia ondinhas bonitinhas e leves. Questão de segundos - ou menos - e elas já tinha desaparecido, como tudo o mais nesse mundo, exceto as montanhas que sempre ficam por mais tempo que nós. Mas as montanhas também se vão... E como seria se não fossem?

Um pouco de água gelada na cara para agüentar o caminho.

- Eu sabia que você viria.
- Sim. Não poderia ser diferente. Você sabe...
- Eu sei. Dói?
- Tanto quanto dormir. Dormir dói?
- Não. Mas é angustiante não voltar...
- É angustiante se preocupar com o que veio antes? Você ainda não estava lá...
- É diferente...
- Não, é a mesma coisa. Você é apenas o intervalo, o desvio. Mais nada. As coisas seriam mais fáceis para vocês e para mim se pelo menos essa verdade fosse aceita... Tudo é apenas o desvio. E não me venha com "ah, eu preciso de mais tempo, minha vida não valeu a pena". Você teve exatemente seu tempo para fazer alguma coisa de útil. Não é culpa minha se não soube aproveitar.
- É deprimente pensar em desvio...
- Claro que é! Algum dia você pensou que a vida fosse justa, bonita e tivesse algum sentido? Tolinho! A vida é o que faz dela. O que você faz de você mesmo. Mas agora chega de conversa. Eu tenho mais o que fazer.
- Claro...

E então eu dormi de novo. Sem sonhos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estarda de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudida dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou, e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como uma coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até o campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser alguma coisa que não pode haver tantos!

Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena:
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa,

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente (impassivelmente) nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei o quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez ninca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é impossível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vestia era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando os pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua onde foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta gigante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tào certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever esses versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los.
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás a cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isso, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

[Por Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.]

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

As aventuras de Alice na cidade (nem tão) grande - Episódio de Hoje: Bom É Quando Faz Mal

Domingo, dia 30/11/08, Belo Horizonte.
Uma tarde normal, com Galo x Santos no Mineirão lotado (mais de 60 mil torcedores alvinegros) pra ver um empate horroroso.

Mas eis que de repente ouço tudo melhorar: dia 30/11 também foi o último dia do 53HC Fest. Teve 8 bandas: Severa, The Junkie Dogs, Ironika, Lobotomia, Madame Saatan, DFC, Chakal e Matanza. Foi lá no Armazém 841, situado à Av. dos Andradas, 841, em frente ao Parque Municipal.

Tive probleminhas técnicos (minha tia esqueceu de separar meu dinheiro, tive que pedir minha avó), tive que arrumar uns esquemas pra dormir na casa do Francis (vovó acha que estava na casa da Fefe...), mas no fim das contas deu tudo certo. Olhei no busonline (não confio mais na BHTrans) qual ônibus e onde eu tinha que pegar e onde descer. Peguei o 9202 Pompéia - Jardim América, no mesmo ponto do 1207 e desci na Av. dos Andradas bem pertinho do Armazém (o fato de o Francis ter me avisado com antecedência que ficava em frente o parque Municipal ajudou bastante a pedir informação). Mais ou menos 2h e meia da tarde eu estava com o Francis e o Tibah na porta da casa lá.

Enrolamos um pouco (até umas 6h da tarde) na porta e então entramos. A segurança que me revistou pegou minha pulseira de spikes e meu estojo de lápis e canetas que tava na mochila (eu tive prova hoje, segunda dia 01/12/08, de Metodologia II, às 10h30 am. Resolvi ir direto pra prova, por isso o estojo na mochila.)

Chegando lá as primeiras bandas estavam muito chatas, aí o Tibah foi cochilar, eu fui escutar o jogo do Galo na Itatiaia (mp3 com o volume no talo) e o Francis do lado, rindo do Tibah dormindo e de uma menina que tava praticamente estuprando um cara do nosso lado.

Eu comecei a curtir no show do Madame Saatan, que foi umas 8h da noite.
O DFC foi uma bosta, mto barulho, aquilo não era música.
O Chakal foi da hora. Nesse ponto eu ja tava chamando os meus "guarda-costas" pra gente ir pra frente pra conseguir ver o Matanza mais de perto. Um cara lá me deixou ficar na frente dele (morrendo de medo do Tibah, que ele achou que era meu namorado, eu tava na frente dele) aí eu fiquei na gradinha mesmo, vi tudo de pertinho, zoei com os seguranças. Eu teria achado o Chakal melhor, se eu gostasse de death metal. A apresentação deles é muito boa.

Mas o ponto alto da noite foi o Matanza. Mais ou menos 11h30 da noite eles sobem no palco. Fantástico. Emocionante. E eu pulando que nem uma doida na gradinha (meu braço ainda ta doendo). Começaram com Ressaca Sem Fim, emendando em Maldito Hippie Sujo. Depois de duas músicas que eu não sei o nome, Clube dos Canalhas e Mesa de Saloon. Não me lembro mais da ordem, mas eu sei que tocou Meio Psicopata, Pé na Porta e Soco na Cara, Imbecil, Eu Não Gosto de Ninguém, Bom É Quando Faz Mal, Ela Roubou Meu Caminhão, A Arte do Insulto, Bota com Buraco de Bala, As Melhores Putas do Alabama, Whisky Para um Condenado, umas do Johnny Cash, E Tudo Vai Ficar Pior, Matarei, Taberneira Traga o Gin, o comecinho de O Caminho da Escada e da Corda e de Interceptor V6, Todo o Ódio da Vingança de Jack Buffalo Head e Estamos Todos Bêbados (essa eles nunca cantam inteira). Eu achei que faltou Santa Madre Cassino e Rio de Whisky, embora eu e uma outra garota do meu lado na gradinha tenhamos gritado os nomes dessas músicas umas mil vezes. A criatividade dos caras pra introduzir as músicas é impressionante.

O show PHoddástico acabou por volta de 1h da manhã. Aí os meninos compraram duas cervejas, a gente tirou umas fotos, o cara que me deixou ficar na frente dele ainda tentou tirar uma última casquinha (mas nào deu conta do recado! huahuahau sou dificil), depois eu fui na segurança lá pegar minhas coisas (eu enchi tanto o saco dela na hora do show que ela nem esperou eu pedir, foi me entregando o estojo assim q me viu passando). A gente ficou de 1h às 2h da manhã no ponto e nada do ônibus passar. Aí a gente foi andando, andando, até subir a Afonso Pena até o número 2000 e depois voltar até a rodoviária. Ficamos por lá com o Tibah e a Maíra (uma menina super fã do Matanza que tava na rodoviária voltando pra Ponte Nova) até 4h30 da manhã. Aí eu e o Francis fomos pro ponto, esperamos até umas 5h, aí chegamos na casa dele e apagamos.

Eu tinha prova 10h30 da manhã na FAFICH. O Francis tinha seminário pra apresentar umas 9h na Biblioteconomia. Resultado: a gente combinou e ele me deixou dormindo até um pouquinho mais tarde. Depois eu fui encontrar com ele e devolvi a chave.

Bem... Essa é uma história que eu contaria pros meus filhos se um dia eu tivesse filhos.

=D

Quero ir em mais shows do Matanza!! =D \o/\o/
"Espero que a partida seja boa. E espero não voltar nunca mais."
Frida Kahlo