"Estar vivo, enfim, é uma grave responsabilidade."
Lya Luft
"There's no point in living when you can't feel alive."
Garbage, The World Is Not Enough

sábado, 23 de agosto de 2008

Por que ser a favor da legalização do aborto - 5 motivos

(Resolvi re-postar esse texto que escrevi em maio...)

1) Porque é uma questão de direitos humanos.
O aborto está diretamente inserido nos direitos sexuais e reprodutivos da mulher. Na nossa sociedade, a mulher é quase unicamente a única encarregada do cuidado e da educação dos filhos. a partir da 2a Guerra Mundial, com a inserção da mulher no mercado de trabalho, ela não perdeu essa responsabilidade social, passando a acumular divesas funções pesadas. O aborto, inserido no planejamento familiar, pode ajudar a aliviar essa carga.
2) Porque é uma questão do Direito.
Apesar da nossa Constituição e do nosso Código Penal considerarem o aborto como um homicídio qualificado, existem dúvidas sobre os direitos do embrião/feto, ou seja, do ser humano em fase intra-uterina. Apesar de constituir um ser em potencial, o embrião/feto não pode ser considerado um humano completo. Daí a possibilidade do Direito abrangir apenas os fetos nascidos vivos, capazes de gozar de seus direitos. Além disso, a lei brasileira já descriminaliza o aborto em situações específicas (como em caso de estupro pu perigo de vida da mãe). portanto, já existe uma certa tolerância ao aborto, que pode ser ampliada.
3) Porque é uma questão de ciência.
Retomando o raciocínio da bióloga geneticista Mayana Zatz, se a vida termina oficialmente com a morte cerebral (que permite inclusive os aplaudidos e incentivados transplantes de órgãos), também deveria começar com a formação do sistema nervoso. Já se sabe que a vida é incompatível com a anencefalia (ausência de cérebro), portanto, trata-se de um passo muito pequeno considerar que o embrião/feto ainda não é vivo antes da nêurula se formar (por volta do 3o mês). Antes disso, o ser humano não se forma. Se não houver nidação (fixação do embrião à parede do útero) e formação do sistema nervoso, ocorre o aborto espontâneo, o natimorto. O ser humano potencial não se transforma em ser humano completo, não podendo, portanto, gozar dos seus direitos.
4)Porque é uma questão de saúde pública.
Nos países onde o aborto é proibido, a taxa de mortalidade das mulheres que abortam clandestinamente é o dobro da taxa de mortalidade nos países onde o aborto é descriminalizado. Milhares de mulheres morrem todo ano, vítimas das leis anacrônicas. Têm sido muito divulgados ultimamente casos de abandono de bebês, diversas vezes cruéis. Os orfanatos espalhados pelo país transbordam de crianças abandonadas. Também se tornou comum a gravidez precoce e não planejada, extremamente prejudicial para todas as partes envolvidas. Pode-se concluir então que, tentando se evitar um homicídio, várias outras vidas são perdidas ou arruinadas.
5) Porque, no fim das contas, a maioria das pessoas só leva em conta a moral judaico-cristã-ocidental e se esquece de que existem muitas outras questões envolvidas por trás do aborto.

4 comentário(s). Deixe o seu.:

Lucas Ed. disse...

Bora elencar algumas razões contrárias ao aborto, na medida do possível, fora da moral judaico-cristã ocidental (admito a dificuldade: apesar de ateu, fui católico quase a vida inteira).

1) É quase sempre desnecessário. Para a grande, imensa maioria das situações em que se toma o aborto como possibilidade, há opções mais humanas. Desde pílula do dia seguinte (para relações sexuais não-consentidas) até os mais simples, como camisinhas e pílulas comuns, para situações com consentimento mútuo. Evidentemente, há situações em que só o interrompimento intencional da gravidez seria efetivo, como em casos de anencefalia e risco de morte da mãe. Para os casos de estupro também mas, como disse, (nesses casos) pode-se "contornar" o aborto.

2) Um ponto que você mesma levantou: "existem dúvidas sobre os direitos do embrião/feto". A máxima do Direito diz que in dubio pro reu, ou seja: a dúvida é insuficiente para a condenação. Se ela existe sobre os direitos do embrião/feto, então se considera que ele os tem, até que algum jurista postule em definitivo.

3) É uma questão econômica. Uma cirurgia de aborto segura não é o procedimento mais barato do mundo. Os ricos se refestalam de uma liberação dessas, assumindo a sexualidade de maneira irresponsável e remediando-a através de seus bens. Aos pobres, que você aponta como uma das razões para a liberação, a estes restarão duas opções: o SUS e as técnicas "artesanais" (chá, preparados, drogas caseiras e modos violentos). O SUS não é rápido o suficiente para que a operação se enquadre no meu "motivo bônus" (veja abaixo) e as técnicas artesanais... Bem, acho que os resultados delas (sobretudo para a mulher) já falam por si, não?


4) É uma questão de bom senso histórico. O direito sobre si própria da mulher foi garantido já em 1951, com o descobrimento da Pílula Anticoncepcional, e se encontra plenificado hoje em dia: pode-se obter o fármaco gratuitamente nos postos de saúde por mulheres carentes. O aborto (exceto em casos extremos, já citados) é mais um paliativo frente à irresponsabilidade que reina em nossos dias. É evidentemente mais difícil e trabalhoso planejar-se do que simplesmente pagar e extirpar o incômodo. Mas é realmente mais inteligente?

5) É uma questão de educação. Porque a nossa educação é falha ao inserirem os jovens de maneira responsável na vida sexual, não se justifica aprovar uma lei (ou comportamento) tão polêmico e radical. Uma forma inteligente de abordar a situação é primeiro criar bases educacionais sólidas e depois se rediscutir o assunto. Acredito que numa sociedade consciente, o aborto pode ser legalizado, mas seria pouquíssimo utilizado. Provavelmente, só nas situações em que ele já é tolerado hoje em dia. Autorizar a prática hoje, com o (precaríssimo) nível de conscientização que as pessoas têm (sobretudo aquelas oriundas de classes menos favorecidas) seria autorizar uma carnificina. Um tiro no pé da própria saúde pública...

Motivo bônus) "Retomando o raciocínio da bióloga geneticista Mayana Zatz" então o aborto só pode ser feito até o terceiro mês (12ª semana) de gravidez. Nós sabemos que isso não é verdade, nem é esse o desejo. Se a liberação do aborto passa pela liberdade total da mulher sobre "si", então como ficaria essa restrição temporal? Limitante?

Marcella disse...

Concordo plenamente com o Lucas,muito bons os argumentos contra o aborto.Acredito que aborto não é solução e muito menos uma forma de a mulher gozar de sua liberdade sexual. Apoiar o aborto não faz sentido, muito mais fácil prevenir uma gravidez do que assassinar um embrião/feto. Acredito no livre arbítrio, sou mulher e prezo a liberdade pela qual hoje gozamos graças a outras mulheres que já existiram, mais sou totalmente contra o aborto. Acredito que prevenção é a palavra. Sendo assim, é altamente desnecessário essas práticas de carnificina.

Lucas Ed. disse...

Acabei ampliando este meu comment e transformando em post, lá no Chickeio IV.

Santiago Chiva, Granada disse...

Este vídeo foi feito para fomentar uma maior aceitação social das crianças na Alemanha. Foi realizado por diversos meios de comunicação privados, dentro de uma campanha que contou com o apoio de personalidades da vida pública, apresentadores de televisão e esportistas que não cobraram cachê pela sua participação. Também receberam o apoio de importantes grupos editoriais e financeiros. Desde a liberalização do aborto no país os dados oficiais falam de quatro milhões de abortos, e não é leviano dizer que a cifra real seja o dobro. Este clima tem provocado que as crianças sejam valorizadas como um efeito não desejado do prazer sexual. Curiosamente, depois da campanha, a natalidade tem crescido na Alemanha. O vídeo é emocionante. Olha aquí: http://es.youtube.com/watch?v=pJtlrYmZe6Y
Santiago Chiva (Granada, Espanha)

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Frida Kahlo