
Havia tanto sangue. Ela não conseguia escutar a pulsação ou a respiração dele, apesar do silêncio mortal instalado no quarto vazio.
Ele estava morto.
O sangue pingava dos pulsos dilacerados, e, a despeito da palidez da morte estampada na pele muito alva, havia um sorriso em seus lábios, como se ele tivesse tentado sorrir durante um instante de muita dor. Aquele sorriso iluminava a face pálida do cadáver empapuçado pelo sangue coagulado que escorria dos cortes.
Ela se fixou nos olhos verdes, brilhantes, que estavam abertos e deixavam uma impressão de felicidade e dor. Aqueles olhinhos, duas esmeraldas afundadas nas órbitas do rosto muito branco e frio daquele homem bonito, um tipo meio franzino mas de feições delicadas e esbeltas. Cabelos cor de mel (agora sujos de sangue), aquela cascata escorrendo até os ombros, emoldurando aquele rosto angelical, aquele sorriso de quem sente prazer na dor.
De repente o sangue parou de pingar daqueles pulsos, e o que já havia escorrido sujava o quarto e começava a coagular. Em tese, ela deveria chamar a polícia e dizer que o amor de sua vida cortou os pulsos. Mas havia nele um tipo de magnetismo que a impedia de se afastar para pegar o telefone.
Por incrível que pareça ela não conseguia parar de chorar. Não conseguia acreditar que ele a deixara sozinha de novo... Não conseguia acreditar que ele pegou aquela gilete no banheiro e enterrara nos pulsos até que aquele líquido vermelho e quente e viscoso escorresse pelo chão. A gilete ainda estava lá, tingida de vermelho, provavelmente seca. O cheiro doce do sangue se coagulando nauseava-a, mas ela ignorou aquela vontade de vomitar que sentia. Parecia que ela ia virar do avesso a qualquer momento, mas continuou parada, olhando o cadáver, tentando entender o que estava acontecendo.
Uma hora ele iria começar a se decompor e ninguém iria suportar o cheiro. Ela ia ter que chamar a polícia.Agora nada iria fazê-lo voltar para ela. “Presentes não são promessas, beijos não são contratos”. Passado o momento da negação, o desespero tomou conta dela. Nunca mais ia tê-lo ao seu lado e isso a fez chorar ainda mais. Nem havia mais lágrimas e ela continuava a soluçar, agarrando-se àquele corpo frio e começando a enrijecer-se. Parecia uma cena de mais uma melosa novela mexicana, mas era pior do que isso. Era de verdade. Não sabia se suportaria aquela dor. Tentou se controlar, conformar-se com a situação.
Ele estava morto e ela nunca poderia trazê-lo de volta.
O mundo é muito cruel.
Depois de horas ela conseguiu se afastar, pegou o telefone e discou o número da emergência.
-Alô, eu gostaria de informar que um homem se suicidou. - Soluços.
-Qual o endereço? – Ela informou-o aos prantos.
Depois que desligou o telefone, ela telefonou para a mãe. Disse-lhe o que viu. Depois se deitou no chão, ao lado dele, e esperou.
Quando a polícia chegou, achou uma garota dormindo ao lado do cadáver de um jovem com idade aparente de uns vinte e poucos anos, talvez vinte e três no máximo. Achou também uma lâmina de barbear tingida de sangue seco a poucos centímetros do casal. O rapaz morto estava com pouco sangue e seus pulsos apresentava vários cortes, por onde o sangue escorreu. Encontrou um bilhete (os suicidas sempre deixam um bilhete, é incrível) onde ele dizia porque decidira cortar seus pulsos, apesar do amor que sentia pela namorada, do carinho dos amigos e da família sempre presente em sua vida.
A garota foi levada para o hospital em estado de choque, e não lhe foi permitido ir ao velório ou sepultamento. Ela passou algumas semanas dormindo à base de remédios tarja preta. Ficava calada o tempo todo, não se alimentava direito, não fazia nada, saiu da faculdade, ignorou amigos e, por fim, dois meses após a morte do namorado, foi encontrada morta em seu quarto, com uma overdose de remédios para dormir.Não sei, mas talvez eles ainda estejam juntos, onde quer que estejam. Nem a morte foi capaz de separá-los. Nem a morte.