"Estar vivo, enfim, é uma grave responsabilidade."
Lya Luft
"There's no point in living when you can't feel alive."
Garbage, The World Is Not Enough

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Elegy: Teuflisch


The light is gone...
Shut the last door, you stupid!
Feel the blood shedding from your rotten wounds!

Feel the fire burning your rotten flesh!

And the demons will eat your soul
While you dive in darkness...
(Life sounds like death!)

Let the tears wash the blood!

Watch your flowers dying...
In flames - despair
Found the last key...

There's only horror beyond those lies!

Elegy: Murtherer


The Lady has come to destroy.
To steal souls, to bring the despair...
She came to kill...
To wash the hope away...

The shot still echoes in the sky.
The hot bullet tears the skin...
Now, the grave is her last home...
Life is so empty without her...

The Murtherer is lost with her soul...

Elegia nº8: Das Grab


A distância separa o vazio e o oco.
Apenas uma única lembrança,
Um último tormento,
Que veio para arrematar o derradeiro nó.

Veio para enxugar o sangue,
Para assombrar o medo,
Apenas uma nuvem se deitando no horizonte...
Um último e implacável fim.

A chuva de sangue se transforma em tempestade...

Elegia nº7: Quimera


O fogo vai queimando por dentro,
Jogando para dentro todo o ódio,
O nojo...
A terra vai caindo lentamente,
Misturando-se à cal viva,
Cobrindo o corpo da morta...
A inscrição funérea - cruel aço! -
Congela mais que hidrogênio líquido...

E o caixão se afunda lentamente na terra...

Foi-se embora, rumo ao vazio...
Permanece aqui o triste lamentar.

Elegia nº5: Fado


Ela morreu na lama.
E no meio da lama estará para sempre,
Descansando entre os vermes disformes...
E haverão rosas em seu túmulo inerte...
Haverão lágrimas aguando as flores...
E, sobre o seu altar, velas se queimarão...

(E ninguém nunca dirá que a lama sempre a possuiu - e possui.)

Ah!...
Que condenado sou à sua falta!
Ela, morta, jaz no cipreste mofado,
E eu vivo jazendo na eterna solidão!

Elegia nº1: Flores retumbantes


Eu vi as flores fenecendo no caixão...
Expiando, exalando morte e desespero...
Emoldurando um anjo morto - o meu segredo -
Eu que pedi para também partir
Afogado agora na expiação...

As suas asas já não ruflam mais...
Ah!... Sua voz já não sussurra.
Jaz calada entre flores mudas
Pálida e fria, aos poucos se desfaz...
A mariposa rompendo o último casulo!

Durma em paz, meu doce anjo!
Descanse entre as flores que ornamentam
[o teu olhar vazio!
Eu pedi para levá-la - não pude -
Eu pedi só mais um beijo - foi negado -
Agora a cova é sua última morada.

Corte lateral


“As máscaras não apenas nos ocultam do mundo,
também ocultam o mundo de nós.”

A solidão corrói mais que ácido clorídrico puro. Age por dentro, sem antídoto de reação. Ainda não sei porque, mas pretendo descobrir um dia. Por enquanto eu vou seguindo em frente, tentando achar um caminho a seguir, uma direção, um propósito. Por quê?
Por enquanto vejo tudo escuro, como se houvesse uma venda sobres meus olhos, uma escuridão incapacitante. Me paralisa; um passo no escuro e, puft, já estou no chão outra vez. Quem sou eu? Por que estou aqui? Gostaria de saber. Mas quem descobre isso jamais volta.
O vermelho do sangue tinge essas páginas com o mesmo ardor com que tingia as espadas medievais que cortavam a carne dos “inimigos” de Deus. Só há uma diferença: não existe espada alguma cortando minha carne. Existe a dor e o sangue escorrendo entre as lembranças, talvez uma faca imaginária, um punhal introduzido no peito. Mas não vejo punhal algum. Por que dói tanto? Qual o meu crime? Existem respostas? Talvez, mas nunca o saberei realmente. Apenas há sangue encharcando minhas vestes mas nem mesmo me cortei.
Está tudo na minha cabeça, eu sei. Mas não sei como reagir ao que me circunda, o que acontece ao meu redor. Apenas sinto veias rompidas que, na verdade, estão intactas. E só eu não percebo que tudo o que se desmanchou aos meus olhos ainda está inteiro. Queria descobrir por que chorar se isso não traz de volta o que se foi.
E o sangue escorre, viscoso, quente, selando minha última esperança, o sopro. Apenas escorre. E, junto dele, minha vida desce pelo ralo das desilusões inúteis.
E, tão certo quanto o vermelho-sangue que tinge estas páginas, está a fonte da desesperança, clamando dentro de nosso peito atrofiado. É por isso que o sangue continua a escorrer, não importa o torniquete. Fazemos o possível para esconder o sofrimento e a dor equilibrando-nos em saltos altos e ocultando nossas faces atrás de máscaras obscuras e sombrias, que nos escondem a realidade, uma viseira inoportuna e inconveniente, que, na verdade, não percebemos. E assim somos guiados como burros de carga em direção ao moedor de carne gigante, todos iguais.
Por que nos deixamos guiar tão facilmente como cachorrinhos famintos em direção ao pedaço de osso que nos cabe roer? Será que ninguém percebe o absurdo da situação incômoda que mantemos por medo? Bem, não sei. Talvez nunca consiga mudar o mundo ao meu redor, mas pelo menos a minha viseira eu vou arrancar.
E quero parar de sangrar.
Ajeito o corte (imaginário) no laço apertado tentando estancar também a dor. Tentando limpar a brancura imaculada da minha roupa do sangue que escorre entre a gaze de algodão. Parece que o estigma do corte não vai se curar.
Não quero me perder no hiato da existência.
Me olho no espelho; a palidez da morte me macula, apenas o vermelho do sangue escorre, fantasmagórico, mórbido. Vou ficando cada vez mais branca e lúcida. Me afogo numa piscina de mágoas e sangue. A clepsidra imortal não cessa de me roubar a umidade vital, me roubando tempo e me roubando a vida. Por que eu deixo? Por que os outros deixam? Por que isso acontece? Por que se martirizar por algo que não é real? Queria pensar que isso só ocorre na minha visão fantástica do mundo. Gostaria que isso mudasse com minha alma.O torniquete está funcionando agora, pelo menos com o sangue. Não podia conceber uma notícia melhor durante minha vida inteira. Talvez o corte sare, um dia, talvez me mate, como já o fez antes, com outras pessoas. Mas eu tenho esperanças de que melhore, me torne alguém melhor. Basta apenas esperar para tirar o laço e perceber que o corte pode se fechar se for bem cuidado.

Faces da morte


Havia tanto sangue. Ela não conseguia escutar a pulsação ou a respiração dele, apesar do silêncio mortal instalado no quarto vazio.
Ele estava morto.
O sangue pingava dos pulsos dilacerados, e, a despeito da palidez da morte estampada na pele muito alva, havia um sorriso em seus lábios, como se ele tivesse tentado sorrir durante um instante de muita dor. Aquele sorriso iluminava a face pálida do cadáver empapuçado pelo sangue coagulado que escorria dos cortes.
Ela se fixou nos olhos verdes, brilhantes, que estavam abertos e deixavam uma impressão de felicidade e dor. Aqueles olhinhos, duas esmeraldas afundadas nas órbitas do rosto muito branco e frio daquele homem bonito, um tipo meio franzino mas de feições delicadas e esbeltas. Cabelos cor de mel (agora sujos de sangue), aquela cascata escorrendo até os ombros, emoldurando aquele rosto angelical, aquele sorriso de quem sente prazer na dor.
De repente o sangue parou de pingar daqueles pulsos, e o que já havia escorrido sujava o quarto e começava a coagular. Em tese, ela deveria chamar a polícia e dizer que o amor de sua vida cortou os pulsos. Mas havia nele um tipo de magnetismo que a impedia de se afastar para pegar o telefone.
Por incrível que pareça ela não conseguia parar de chorar. Não conseguia acreditar que ele a deixara sozinha de novo... Não conseguia acreditar que ele pegou aquela gilete no banheiro e enterrara nos pulsos até que aquele líquido vermelho e quente e viscoso escorresse pelo chão. A gilete ainda estava lá, tingida de vermelho, provavelmente seca. O cheiro doce do sangue se coagulando nauseava-a, mas ela ignorou aquela vontade de vomitar que sentia. Parecia que ela ia virar do avesso a qualquer momento, mas continuou parada, olhando o cadáver, tentando entender o que estava acontecendo.
Uma hora ele iria começar a se decompor e ninguém iria suportar o cheiro. Ela ia ter que chamar a polícia.Agora nada iria fazê-lo voltar para ela. “Presentes não são promessas, beijos não são contratos”. Passado o momento da negação, o desespero tomou conta dela. Nunca mais ia tê-lo ao seu lado e isso a fez chorar ainda mais. Nem havia mais lágrimas e ela continuava a soluçar, agarrando-se àquele corpo frio e começando a enrijecer-se. Parecia uma cena de mais uma melosa novela mexicana, mas era pior do que isso. Era de verdade. Não sabia se suportaria aquela dor. Tentou se controlar, conformar-se com a situação.
Ele estava morto e ela nunca poderia trazê-lo de volta.
O mundo é muito cruel.
Depois de horas ela conseguiu se afastar, pegou o telefone e discou o número da emergência.
-Alô, eu gostaria de informar que um homem se suicidou. - Soluços.
-Qual o endereço? – Ela informou-o aos prantos.
Depois que desligou o telefone, ela telefonou para a mãe. Disse-lhe o que viu. Depois se deitou no chão, ao lado dele, e esperou.
Quando a polícia chegou, achou uma garota dormindo ao lado do cadáver de um jovem com idade aparente de uns vinte e poucos anos, talvez vinte e três no máximo. Achou também uma lâmina de barbear tingida de sangue seco a poucos centímetros do casal. O rapaz morto estava com pouco sangue e seus pulsos apresentava vários cortes, por onde o sangue escorreu. Encontrou um bilhete (os suicidas sempre deixam um bilhete, é incrível) onde ele dizia porque decidira cortar seus pulsos, apesar do amor que sentia pela namorada, do carinho dos amigos e da família sempre presente em sua vida.
A garota foi levada para o hospital em estado de choque, e não lhe foi permitido ir ao velório ou sepultamento. Ela passou algumas semanas dormindo à base de remédios tarja preta. Ficava calada o tempo todo, não se alimentava direito, não fazia nada, saiu da faculdade, ignorou amigos e, por fim, dois meses após a morte do namorado, foi encontrada morta em seu quarto, com uma overdose de remédios para dormir.Não sei, mas talvez eles ainda estejam juntos, onde quer que estejam. Nem a morte foi capaz de separá-los. Nem a morte.
"Espero que a partida seja boa. E espero não voltar nunca mais."
Frida Kahlo